Segredos de Sangue

Quando Park Chan-wook lançou "Oldboy" em 2003, todos ja começaram a especular como seria a carreira de um diretor tão visionário e competente, mas o problema foi que Park não fez muitos filmes prestigiados logo após "Oldboy", que acabou virando um cult. Ele fez alguns filmes para a Córeia do Sul (sua terra natal) e nada mais do que isso. Até agora, claro.

Em "Segredos de Sangue", vemos India Stoker uma "menina" que ao perder seu pai, tem que saber lidar com o relacionamento difícil com sua mãe, saber lidar com a dor da ausência do pai, compreender as intenções do tio misterioso, e ainda "tentar" ser uma adolescente normal. Entretanto, o problema começa quando algumas pessoas que India gostava muito, começam a desaparecer inesperadamente.
No seu primeiro filme feito para o mercado americano, o diretor traz muitos elementos de "Oldboy", mas coloca uma nova textura, novos tons e uma pegada um pouco mais forte, mesmo que tenha alguns problemas para fazer as marcações corretas para os atores e uma certa falta de ritmo. Park consegue imprimir sua marca de obscuridade com violência e muito sexo, e ainda sabe como chocar o telespectador com uma história de família super bem arquitetada e pensada, nunca deixando o filme com um ar melancólico exagerado, como Lars Von Trier, ou transformando-o num daqueles filmes B que ninguém entende nada.
Wentworth Miller, que até hoje fora apenas ator, agora faz sua estreia como roteirista num filme que exige muito do seu escritor, não só por trabalhar com um profissional como Parker, mas saber o que o diretor queria falar, saber a linguagem certa e saber dar o tom certo de escuridão que o filme precisa. E isso, felizmente Miller soube muito fazer, como também construir personagens que nos levam a ficar esperando seu final, saber qual será a atrocidade que cada um fará em seguida e fazer cenas chocantes (principalmente os banhos de sangue). Claro que Miller teve muita dificuldade para estabelecer um lugar em cena para a personagem de Nicole Kidman, embora não seja a personagem principal, ela era uma um trunfo muito importante em certas cenas, como a discussão entre mãe filha, que poderia ter sido mais explorada pelo roteirista.
O elenco é o que o filme tem de melhor para oferecer, seguido da história claro, porque mesmo com pouca gente em cena, Parker conseguiu reunir tantos bons atores que fica difícil para quem avalia, apontar quem foi o melhor, porque se você assistir esse filme (coisa que eu espero que não vai demorar)  vai perceber que todos os atores estavam engajados em fazer um bom trabalho. Sorte a nossa.
Nicole Kidman ja teve seus momentos difíceis na carreira, mas hoje posso dizer com segurança que a Nicole de hoje é muito melhor daquela que vimos em "Moulin Rouge" ou em "A Bússola de Ouro", nesta nova fase que ja lhe rendeu trabalhos muitos bons como "Obsessão" de Lee Daniels e "Hemingway & Gellhorn" da HBO, Nicole mostra sua vontade de ganhar seu segundo Oscar, e felizmente este ano ela esta com toda a qualidade necessária, seja profissionalmente (sendo jurada em Cannes) ou pessoalmente, Nicole Kidman volta a ser uma das melhores atrizes de sua geração, lugar no qual, ela nunca deveria ter saído. Mia Wasikowska ainda vai demorar para entrar na corrida de um grande prêmio, mas ela ja sabe como chamar atenção, seja na Alice de Tim Burton ou na Jane Eyrne de Cary Fukunaga, Mia é um exemplo em cena, e aqui ela não faz diferente mostrando uma evolução incrível do início ao final do longa. Ela tem de tudo para nos surpreender, juntamente com Jennifer Lawrence e outras belas atrizes dessa nova geração. Matthew Goode é um daqueles atores que raramente aparece em cena ou é fotografado por algum paparazzi, e isso o ajudo muito, até porque ele não gasta o seu enorme talento com filmezinhos. E se ja não tínhamos visto o que ele tem a oferecer no excelente "Direito de Amar" de Tom Ford, neste filme Matthew é para mim um dos atores que ja esta indicado ao Oscar de 2014, porque uma performance como esta, aparece la uma vez ou outra. Simplesmente barbáro. Jacki Weaver é um daqueles talentos, que assim como a performance de Matthew, aparecem raramente, e isso acaba tornando-a uma das melhores atrizes australianas que ja pisaram em Hollywood, seja pelo carisma ou pelo seu talento, Jacki é super talentosa e não merece fazer qualquer filme, seu talento tem que ser usado em personagens como este aqui.
Por fim, "Segredos de Sangue" pode não ser a sua melhor opção para relaxar no final de semana, mas se você quer saber porque o cinema ainda não foi engolido pelo capitalismo e pelas bobagens estereotipadas, vá ao cinema, garanto que você não se arrepender, até porque filmes como esse aparecem la uma vez ou outra.
Nota: 9,5

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