Lado a Lado

Produções de época da Rede Globo tendem a ter espaço nas minisséries, como a bonita "Amazônia" que Glória Perez lançou em 2007, mas esses tipos de entretenimento tendem a ser pouco explorados no horário nobre, e quando falados, tendem a ser ruins ou amadores, no entanto, dessa vez o tom, a produção e o elenco acertam em cheio em qualquer quesito que a nossa decadente dramaturgia possa exigir. Cláudia Lage e João Ximenes Braga construíram, em 154 capítulos, uma novela que merece mais do que ser lembrada como um mero folhetim do horário das seis horas, porque o que eles criaram aqui fora um retrato perfeito da república brasileira do século 20, tornando tudo que estudamos nas aulas de história do Brasil em realidade, coisa que nenhum meio de entretenimento ja teve o prazer (ou o desprazer) de levar ao ar.
"Lado a Lado" levou ao ar, histórias muito interessantes e pertinentes no Brasil do século 20 e da sociedade de hoje, porque mesmo se passando mais de cem anos, o Brasil continua praticamente o mesmo: as favelas rejeitadas, sem saneamento básico, sem tratamento de saúde adequado, as mulheres sendo tratadas como enfeites para seus maridos e sem nenhuma voz para escolher o que querem, e sim o que a sociedade acha sensato. Felizmente, o excelente texto não retrata uma história de mulherzinha injustiçada que chora aos céus pela vida que tem,não, aqui temos outra coisa que nenhuma protagonista da Globo fez até hoje (além de Morena em "Salve Jorge"), ir a luta, desbravar mundos, preconceitos e quebrar barreiras que hoje são consideradas banais como o voto feminino. O texto, ainda fala com maestria de duas revoltas populares que ocorreram no Brasil no século 20: as revoltas da Chibata, que ocorreu na marinha com marinheiros negros sendo açoitados mesmo com o fim da escravidão, e a da vacina que ocorreu devido a razões políticas.
Mas sempre ressalto a questão de que não teríamos filmes, séries e (principalmente) novelas, sem um bom elenco, e (acho eu) que pela primeira vez não tenho reclamação com esse quesito, pois todos, repito TODOS, os atores e atrizes deram o melhor de si, seja aprendendo a dançar (como Camila Pitanga) ou a lutar capoeira (como Lázaro Ramos). Esse elenco esteve desde o início em plena sintonia. Mas, mesmo que todo o elenco mereça aplausos há sempre aquelas figurinhas carimbadas que merecem o topo. Começamos por Marjorie Estiano que começou na "Malhação" e fez algumas novelas de sucesso no horário nobre das nove horas, mas se achou mesmo na ótima "A Vida da Gente" que celebrava a vida e o tempo, e agora mostra que é uma atriz de fibra ao dar tudo de si num papel difícil, que exige muito esforço da atriz que a interpreta. Cassio Gabus Mendes sabe interpretara qualquer papel, e isso nos impressiona muito, porque um ator que já interpretou Chico Mendes, um padre em "Chico Xavier", o "marido" de Bruna "Surfistinha" e agora um corrupto senador da república. Esse é um daqueles atores que a Globo não pode deixar ir para a concorrência, porque não consigo pensar em ninguém melhor que ele para fazer um papel como esse. Paulo Betti e Maria Padilha fazem uma química perfeita, além de estarem muito divertidos. Christiana Guinle me surpreendeu ao protagonizar momentos de tirar o folêgo. Ela demonstra, nessas cenas, qualidade de atrizes que ja estão a anos trabalhando, sua "Carlota" me surprendeu muito positivamente.
Bia Seidl nunca esteve tão em forma como na pele de Margarida, ela me surpreendeu com uma performace  madura, muito diferente do que ela ja fez, como a insossa Helena de "Insensato Coração". Tomara que Bia receba papéis melhores do que esta acostumada a receber. Zezeh Barbosa reforça a tese de que é uma das melhores atrizes desta televisão brasileira, sendo capaz de interpretar peruas (como fez em "Aquele Beijo") e entregar uma performace de mestre na pele de Tia Jurema. Além de Zezeh, Milton Gonçalves emociona ao falar com tanto afinco dos tempos de escravidão, nos fazendo pensar que de tão realista, ele viveu mesmo nos tempos que escravos eram açoitados e sobreviveu para contar hisória.  Alessandra Negrini, faz um retorno triunfal a TV, numa performace que a coloca no posta de melhores de sua geração, espero ve-la mais nas telinhas, porque desde que Catarina foi presa e saiu de cena, eu já estava com saudade da personagem e da atriz.
Patrícia Pillar merece um parágrafo só para ela pelo nível de concentração e perfeição que ela consegue dar em todos os personagens que faz. Se com a Flora ela ja tinha marcado uma época, se tornando a segunda maior e melhor vilã das telenovelas brasileiras (perdendo apenas para Odete Roitman de Beatriz Segall), como Constância, ela pode não marcar época, mas consegue imprimir o seu nível de perfeição ao "possuir" um personagem. Patrícia merece ser eternizada na história da dramaturgia brasileira.
Também não podemos deixar de destacar as ótimas participações especiais de: Beatriz Segall, Maria Fernanda Cândido e Maria Eduarda.
Elenco,Texto,Direção sempre de mestre de Dennis Carvalho e produção, que inclui os figurinos deslumbrantes e um direção de arte perfeita, fazem de "Lado a Lado" uma das melhores novelas que a Rede Globo ja exibiu.
Acredito que nunca na história a Rede Globo conseguirá colocar na sua grade três novelas com qualidade de excelência ao mesmo tempo: "Lado a Lado", "Cheias de Charme" e "Avenida Brasil". Essas poderiam ficar para sempre na tela da Globo, pena que acabaram.
Resta para "Flor do Caribe" manter tal qualidade e perfeição, coisa que mesmo com o bom elenco que escalou e uma direção competente de Jayme Monjardin, deve acontecer.
Ah, e antes de terminar gostaria de deixar bem claro o meu repúdio a este público ignorante (a verdadeira definição seria imprópria para esse texto), que nunca deu a chance para essa novela desde o início por ser "muito difícil" e "pesada". Sinceramente, ai depois vocês não querem ser chamados de ignorantes e sem cultura, pois quando tem a chance de assistir uma novela de qualidade, preferem desligar a TV ou assistir a concorrência. Isso seria porque o contudo é muito pesado ou será porque vocês não aguentam que os seus preconceitos e imoralidades sejam expostos sem o menor pudor?
Nota: 10

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